O preço do entorpecimento: quando sentir virou doença
Sobre o entorpecimento emocional e o uso excessivo de medicamentos psiquiátricos em adolescentes. Tempo de leitura: 4min.
Nos últimos tempos, tenho refletido com certa inquietação sobre um fenômeno que se torna cada vez mais visível: o uso excessivo de medicamentos psiquiátricos entre adolescentes, especialmente entre 14 e 17 anos. Em uma conversa recente, mencionei um vídeo de jovens músicos onde todos relataram tomar, no mínimo, duas medicações diárias — alguns chegavam a quatro.
Essa cena me atravessou. Fiquei me perguntando: como chegamos a um ponto em que tantos jovens precisam ser medicados para simplesmente existir?
Embora conflitos existenciais e famílias desestruturadas não sejam novidades, o que assusta é a dependência crescente da indústria farmacêutica para que possamos funcionar minimamente. Essa dependência vai além do corpo — ela é simbólica. Revela uma sociedade que perdeu o espaço da autorreflexão, substituindo o sentir pela medicação e o silêncio interior pela busca desesperada de se ajustar.
Vivemos reféns da velocidade e do ajuste constante
A vida contemporânea é um frenesi. A cada dia, novas regras, padrões e referências são impostos por influenciadores, mídias e discursos de performance. Tudo muda rápido demais, e esse ritmo insano impede a pausa necessária para que possamos ouvir o que sentimos.
O resultado é um entorpecimento generalizado: o sentir — especialmente o sentir dor — se torna um erro a ser corrigido. E o que não é sentido, não é compreendido. O que não é compreendido, se repete. O que se repete, adoece.
Tenho visto o sofrimento dos jovens se intensificar justamente porque não encontram mais espaço para elaborar a própria dor. O corpo, então, começa a gritar o que a alma não consegue expressar — em forma de crises, mutilações e tentativas de silenciamento químico.
Do sacrifício silencioso à dor escancarada
Nas gerações anteriores, o sofrimento se escondia sob o manto do dever. Era o “suicídio lento” dos que se anulavam para cumprir papéis sociais e religiosos, sustentados pela crença de que o sacrifício era virtude.
Hoje, o movimento é outro, mas a essência é a mesma. Vivemos uma anulação acelerada — um suicídio rápido, expresso na dor que não cabe mais ser contida. A diferença é que agora o sofrimento se tornou visível, gritado, muitas vezes no próprio corpo.
Enquanto antes se morria aos poucos para agradar o mundo, agora muitos se ferem para tentar sobreviver a ele.
O cancelamento e o medo de existir
Há algumas décadas, quem ousava ser diferente era julgado por sua aparência, por uma roupa, uma tatuagem ou um corte de cabelo. Hoje, o julgamento é virtual, coletivo e implacável.
A cultura do cancelamento tornou-se uma nova forma de repressão: quem não se encaixa é expulso, silenciado ou ridicularizado. E diante desse medo de rejeição, muitos jovens preferem se calar, se adaptar, apagar o que são.
Percebo, em muitas falas, esse movimento de autossabotagem: a tentativa inconsciente de “matar” dentro de si a parte viva, pulsante e verdadeira — só para pertencer. Mas o preço da aceitação social tem sido, cada vez mais, a perda da autenticidade.
O risco da anestesia coletiva
Gosto de pensar que os medicamentos psiquiátricos, quando bem indicados e acompanhados, são ferramentas importantes. Mas o que me preocupa é o uso banalizado, automático — como se a solução para o desconforto humano fosse apenas química.
E me pergunto: o que acontece com a sensibilidade e com as emoções quando passamos a viver anestesiados?
Se desligamos os sentidos para suportar o mundo, o que resta de humano em nós? Quando tudo o que sentimos é tratado como patologia, perdemos o contato com a sabedoria natural da dor — aquela que nos guia, que nos mostra o que precisa ser visto, curado e transformado.
Sentir é um ato de resistência
O que proponho é uma reflexão — e, mais do que isso, um resgate.
Precisamos reaprender a sentir, a acolher o desconforto, a reconhecer a dor sem transformá-la em inimiga. Sentir é, hoje, um ato de resistência.
Nas próximas partilhas, quero aprofundar essa conversa sobre como nos tornamos uma sociedade emocionalmente amortecida, em que é quase proibido sentir, doer e chorar — e sobre como o retorno à sensibilidade pode ser o caminho de cura mais profundo e libertador.
Porque talvez o verdadeiro remédio não esteja em calar a dor, mas em escutá-la com amor e presença.



